quinta-feira, 6 de março de 2014

O GOLPE - Es'Piano tuas mãos

"(...)your skin and bones
Turn into something beautiful" *

Todos sabem sobre mãos
Mas, que sei eu das tuas?
Ossos, unhas, dedos, mús(icas)culos, poesia.

O que delas conheço não basta,
É preciso olhar de perto, mesmo longe
Tocá-las sem senti-las
Já mortificadas relembrá-las
Com admiração tanta ao vigor
que delas vem
Para que eu seja mais equilíbrio e menos saudade.

Posto que me apetece estar, mesmo que furtivamente,
Sobre estas mãos,
Que seja piano, que seja pianíssimo! 






*MARTIN, Chris; BERRYMAN, Guy; BUCKLAND, Jon; CHAMPION, Will. Yellow. In: Coldplay. Parachutes. Reino Unido: Parlophone, 2000. 1 CD. Faixa 5.

sábado, 14 de dezembro de 2013

CONFRONTO


Abre-se a mente, lenta mente...
Tarefa impiedosa - surge, assombra, acontece:
Dor válida.
Ademais, predecessora de iluminação:
Quente mente.
Se ainda não, ampute-se, gladie-se,
Só não arquive o processo,
Em obstinação perene se alcança progresso.
Caso, estúpida mente, canse, lamento!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

DUAS VEZES LUSTRO



                                                 (Ao amor maior)

 

Duas vezes lustro, decênio,
Capítulos, novembros,
Década de uma vez que se foi

Mas retornes... Que me apetece!

Mãe,
Envie-me um sonho bom
Como aqueles que, ao acordar,
A gente sabe que não foi só um sonho...
Mas finge que foi!

A lua, as ladeiras, muralhas da Grécia,
As altas camas e paredes perfumadas
Por ervas em minhas mãos,
Que dizer? Que pensar?

Responsabilidade tua, que por outrora
Ter-se feito presente e agora não mais,
Recompensa-me com sonhos, águas lustrais,
Em tua ausência desmedida...

Mãe,
Envie-me um sonho bom
Como teu cheiro que permanece, mas que
Para não perdê-lo nem me movo,
Disfarço que sinto, guardo em segredo!

Parte de mim, momento meu,
Que fazer quando pensar?
Quanto penar...
Tristeza de anos a fio: instante!

FRICTIO GRADUS


Folhas secam 
Flores floram-se 
Finas foram-se 
Virar secura. 
Renda em brandura 
Finita finura, 
São as folhas que estalam 
Ou o chão que murmura? 
Fim do compasso 
Findo abraço 
Sem ritornello a floresta se cura.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ATRASO

 
Arc, arc, arc...
Arcaico, artista, arco-íris,
Armado, arteiro, artrite,
Alado, inalado,
Arnaldo, ar Nietzsche,
Arcada, ar triste.


Armada, fermata, Arturo.
Amada, fé mata... Aturo!


quarta-feira, 12 de junho de 2013

CAPPUCCINO MUNDO



                            


A distância é porto, é lenço, é mar, é enfeite
Que decora meu espelho, enquanto a saudade espreita
Uma saída sem que eu a perceba...
É conformismo, é riso esperançoso aguardando o teu
Que, enquanto não chega, o meu se aquieta e me deixa:

Cá, por ti, no mundo!

Cappuccino forte p’ra qualquer amor profundo
Que não se queixa da má sorte de amar tão sem juízo,
Tão sublime, enlouquecido, a ponto de gritar arfante ao mundo,
Que a sorte lhe foi amiga!

Mas quão amiga me foi a morte,
Que me levou a vela, a sede, o céu, o senso,
E tão à míngua me deixou entregue
À tua pureza mais terna e tênue.

Tens as mãos que se movem à mó
No amor que em mim é carcerário,
E tu, apenas tu, tem o poder de visitá-lo, quando em vez,
Em alegria ou pranto!

E esse amor é de um valor tanto
Que o vejo prestes a ser furtado,
Quiçá por algum não amado
Buscando a felicidade em teu canto...

Mas este amor já me foi selado.
Conferi endereço e destinatário...
É teu, ímpeto e afortunado,
Com graça, memórias e cartões-postais,
Lembranças, notícias, meus abraços e mais:
Um “Eu te amo” estuante no Post-scriptum!



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

BERNARDO DESESPERADO



Se foi... Voou o nosso amor
Para a cabeça das colcheias
Da canção que já não soa,
Porque nós é que somos os músicos,
E recusamo-nos continuar.

Foi embora... Esbarrou na janela,
Deu a volta em nossa sala com inocência,
Entristeceu-se com a penúria do meu choro
E escorreu pela saída de emergência.

Fomos felizes até o final da linha...
Mas, será o fim da linha esta linha que escrevo
Ou a linha do meu vestido?
Alinhave-se em mim,
Se a vida permitir eu costuro!

Porém, enquanto não encontramos a agulha,
Pegue tuas ferramentas,
Aperte teus botões!
Creio teus parafusos estarem frouxos!

E pudera eu pensar infeliz defeito,
Pois a criança que tu fora um dia
Sumiu com a rapidez de quando alguém apaga uma lâmpada
E logo acende para procurar algo.
– Onde está? Não sei!

Tua sensibilidade foi embora.
És agora mais um na classe do proletariado...
E te exploram e devoram!
Tu? Aperta botões!

Tornaste uma máquina.
O que não é tão ruim pelos meus cálculos românticos:
Por teres muito o que produzir
Nem tens tempo de sentir minha falta!

Por isso e por tudo e por tantos alguns “alguéns”
É que decido salvar o que ainda me resta,
Pois tua locomotiva de mil engrenagens
Não assimila o amor...

E de tanto não compreender
Ou esquecer que compreende,
Meu amor fora triturado
Derretido, soldado, lustrado,

Embalado, encaixotado e transportado
Para bem longe de tu,
Que outrora soube amar e fazer do nosso amor
Algo um pouco mais belo que oficinas.

Mas eu não sofro
E até compreendo:
Talvez o sacrifício por um amor imenso
Não seja tão doce quanto a tua fábrica!



 










quarta-feira, 8 de agosto de 2012

ANALOGIA AO NOSSO AMOR


De tudo dar-te-ei do mundo!
Não... O mundo tem feição ríspida.
Quero dar-te do belo, do puro...
Assim não o darei.

A não ser que eu me faça pássaro
E, dê-te meu cantar, minha nobreza.
Ou então semente, para que eu floresça,
Germine todo o campo e dê-te vista esplêndida.

Tu acariciarás minhas pétalas
E te soprarei meu ar fresco,
Tão perfumado e inebriante
Que tu te perguntarás: Como pode tão perfeita?

Porém, como há de ser,
Por épocas me farei sem cor
Sem vida, sem quer, sem malmequer
Nem sequer ter um se ou querer ter.

Tu, igual camponês sem água no poço, sofrerás
E, eu poupar-te-ei de abraçar-me,
Que a tua dor deve ser expressa
Como o Homem Desesperado de Courbet.

Embora sem hora de chegar
Eu serei sempre fiel
Só para que eu o veja sorrindo surpreso
Ao perceber, discretas, minhas folhinhas surgirem.

Quando tocar-me,
Ainda no chão, pequenina,
Eu vou crescer querer ser tua
E será mais lindo.

Então tu entenderás que ir embora é preciso,
Que, para que venha a primavera,
O inverno tem que passar!

Desta forma será nosso amor,
Sem porto nem itinerário,
Por isso, todas as vezes que nos vermos
Sentiremos mais saudade.

Assim, será como se todos os encontros,
Todos os teus toques e olhares bobos pela manhã
Na tentativa de me acordarem,
Fossem os primeiros.

Eu ganharei mais graça, mais vida
Fecharei lentamente meus olhos para senti-lo cheirar-me
E sentirei como se fosse a primeira vez
Que me colheste em teus braços.



















Auto-retrato de Gustave Courbet (O Homem Desesperado).