quarta-feira, 12 de junho de 2013

CAPPUCCINO MUNDO



                            


A distância é porto, é lenço, é mar, é enfeite
Que decora meu espelho, enquanto a saudade espreita
Uma saída sem que eu a perceba...
É conformismo, é riso esperançoso aguardando o teu
Que, enquanto não chega, o meu se aquieta e me deixa:

Cá, por ti, no mundo!

Cappuccino forte p’ra qualquer amor profundo
Que não se queixa da má sorte de amar tão sem juízo,
Tão sublime, enlouquecido, a ponto de gritar arfante ao mundo,
Que a sorte lhe foi amiga!

Mas quão amiga me foi a morte,
Que me levou a vela, a sede, o céu, o senso,
E tão à míngua me deixou entregue
À tua pureza mais terna e tênue.

Tens as mãos que se movem à mó
No amor que em mim é carcerário,
E tu, apenas tu, tem o poder de visitá-lo, quando em vez,
Em alegria ou pranto!

E esse amor é de um valor tanto
Que o vejo prestes a ser furtado,
Quiçá por algum não amado
Buscando a felicidade em teu canto...

Mas este amor já me foi selado.
Conferi endereço e destinatário...
É teu, ímpeto e afortunado,
Com graça, memórias e cartões-postais,
Lembranças, notícias, meus abraços e mais:
Um “Eu te amo” estuante no Post-scriptum!



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

BERNARDO DESESPERADO



Se foi... Voou o nosso amor
Para a cabeça das colcheias
Da canção que já não soa,
Porque nós é que somos os músicos,
E recusamo-nos continuar.

Foi embora... Esbarrou na janela,
Deu a volta em nossa sala com inocência,
Entristeceu-se com a penúria do meu choro
E escorreu pela saída de emergência.

Fomos felizes até o final da linha...
Mas, será o fim da linha esta linha que escrevo
Ou a linha do meu vestido?
Alinhave-se em mim,
Se a vida permitir eu costuro!

Porém, enquanto não encontramos a agulha,
Pegue tuas ferramentas,
Aperte teus botões!
Creio teus parafusos estarem frouxos!

E pudera eu pensar infeliz defeito,
Pois a criança que tu fora um dia
Sumiu com a rapidez de quando alguém apaga uma lâmpada
E logo acende para procurar algo.
– Onde está? Não sei!

Tua sensibilidade foi embora.
És agora mais um na classe do proletariado...
E te exploram e devoram!
Tu? Aperta botões!

Tornaste uma máquina.
O que não é tão ruim pelos meus cálculos românticos:
Por teres muito o que produzir
Nem tens tempo de sentir minha falta!

Por isso e por tudo e por tantos alguns “alguéns”
É que decido salvar o que ainda me resta,
Pois tua locomotiva de mil engrenagens
Não assimila o amor...

E de tanto não compreender
Ou esquecer que compreende,
Meu amor fora triturado
Derretido, soldado, lustrado,

Embalado, encaixotado e transportado
Para bem longe de tu,
Que outrora soube amar e fazer do nosso amor
Algo um pouco mais belo que oficinas.

Mas eu não sofro
E até compreendo:
Talvez o sacrifício por um amor imenso
Não seja tão doce quanto a tua fábrica!



 










quarta-feira, 8 de agosto de 2012

ANALOGIA AO NOSSO AMOR


De tudo dar-te-ei do mundo!
Não... O mundo tem feição ríspida.
Quero dar-te do belo, do puro...
Assim não o darei.

A não ser que eu me faça pássaro
E, dê-te meu cantar, minha nobreza.
Ou então semente, para que eu floresça,
Germine todo o campo e dê-te vista esplêndida.

Tu acariciarás minhas pétalas
E te soprarei meu ar fresco,
Tão perfumado e inebriante
Que tu te perguntarás: Como pode tão perfeita?

Porém, como há de ser,
Por épocas me farei sem cor
Sem vida, sem quer, sem malmequer
Nem sequer ter um se ou querer ter.

Tu, igual camponês sem água no poço, sofrerás
E, eu poupar-te-ei de abraçar-me,
Que a tua dor deve ser expressa
Como o Homem Desesperado de Courbet.

Embora sem hora de chegar
Eu serei sempre fiel
Só para que eu o veja sorrindo surpreso
Ao perceber, discretas, minhas folhinhas surgirem.

Quando tocar-me,
Ainda no chão, pequenina,
Eu vou crescer querer ser tua
E será mais lindo.

Então tu entenderás que ir embora é preciso,
Que, para que venha a primavera,
O inverno tem que passar!

Desta forma será nosso amor,
Sem porto nem itinerário,
Por isso, todas as vezes que nos vermos
Sentiremos mais saudade.

Assim, será como se todos os encontros,
Todos os teus toques e olhares bobos pela manhã
Na tentativa de me acordarem,
Fossem os primeiros.

Eu ganharei mais graça, mais vida
Fecharei lentamente meus olhos para senti-lo cheirar-me
E sentirei como se fosse a primeira vez
Que me colheste em teus braços.



















Auto-retrato de Gustave Courbet (O Homem Desesperado).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

PRELÚDIO

O que no princípio me ofereceste
Sem dó nem culpa,
Em face à brutalidade,
Enriqueceu-me a inspiração.

Sabes que a dor não me é estranha!

Me é carcereira até que eu,
Faminta de ritmo e inescrupuloso sentimento,
Despeje no papel as notas da poesia que me enolve!

Eu pedi-te dolências
E tu supriste meu clamor com deveras maestria,
Mesmo que involuntariamente! Mas de toda maneira...
Qual forma de crueldade é a tu desconhecida?

Então com clemência, repouse teu pensar em minha inquietação:
Eu tenho as palavras para me libertar...
Mas o que tem como fuga
Quem vorazmente agora o espera?

sábado, 10 de dezembro de 2011

CONFLITO


I



Foi-me dado o dever
Foi-me dado o entusiasmo
A fome, a comida, a sede, a vã bebida
O problema, o desatar do laço.



A saudade, o teu abraço
O drama, o meu juízo
O choro, a caminhada
A risada na loucura!


Foi-me dada a confiança
Mas aliança foi quebrada
Do riso fez-se lágrima
E a incumbência foi-me dada.



Segurei forte a porta
De tão intimada dei resposta
Escorria na face a ira
De não ter escrito a lira que me foi imposta.



O medo dos livros emergia!
Sim, dos livros! Das letras, das linhas que não li.
Qual daquelas cairia no tecer dos fios?
O fio quebraria se tal desatino acontecesse!


Ah... mais belo seria se eu vivesse,
Se não precisasse ter posto à prova
De que meu saber vale algo,
Porque se não vale, o que vale?



Mas a dor tem que passar na linha
E o sepulcro não é sinônimo de lástima
Por isso, se eu perder-me no dicionário,
Perdoem minha falta de disciplina.



Deem um grito na vizinhança
Que minha mão foi pelo caminho errado,
Para que conheçam-me logo pelo o que sou
Pelo o que faço, e vejam o quanto meu lápis é traiçoeiro.


II



Quando eu caí em desespero
Minha irmã sorveu em calmaria
Toda a intensidade do pulsar de minhas veias,
As insanidades de hoje, de ontem...


Mas o meu surto é breve,
Não nascendo do que é concreto
Logo desmancha-se em lucidez
O que penso ser constante.


Se meus sentimentos outrora
Encontravam-se à margem da psicose,
É que sou humana e insensata,
Por vezes incapaz de distinguir o que me corrompe.


Uma voz doce convidou-me a nascer
No princípio de uma noite,
E devaneando entre o ócio e o trabalho
Eu arquejei em vida o deleite!


Fui dar-me com o outro!
É... Aquele outro lado da vida,
Onde o ponto do tecido é fechado
E mantém submerso o que é puro


Enquanto meu pano velho se regenera
Irei desfrutar deste que é novo,
O livro que estive a usar agora faz companhia
Aos outros que optei por não ler.


III


Não! Os rostos que vi eram desconhecidos
O suor que escorreu em meus braços
Entregou a aflição do pesadelo
Que de mim tentou sucumbir.


Oh mestres, perdoem minha falta de fé
Em teus filhos... Eles são sujos!
Porém vejam, estou de volta à imundície!
Nada consigo aproveitar se não a lama do que não aprendi.


O tecido que fiei
Já não mais é digno de atenção,
Já não apara, retém nem escoa,
Nisso, sinto-me mais incipiente do que antes...


Mas para provar que sou pesquisadora incansável:
Deuses todos, da língua e da expressão,
Que não me falte o léxico
Nem o poder de persuadir!