segunda-feira, 19 de maio de 2014

LIQUIDEZ

Morrer:
Tão fácil
Quanto existir.
Liquidar-se:
Tão pesaroso
Quanto manter-se vivo.
Lida diária: tentar consegui-lo...

Vendo flores, árvores,
Vida vendo.
Flores - filtro de papel,
O pó teu mal e bem - perfume e mácula.
Árvores - pai e mãe,
Vem dados, vendidos.
Vida, boa vida:
Vendo-a e vendo-a.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

CRIME PASSIONAL



Repouso aos olhos o esboço,
Os traços imperfeitos que és ainda,
Posto que ver-te não é rotina
Nem de comum beleza o teu rosto.

Recorro à memória, antes que aniquilado
Gravo, recorto, analiso um ângulo outro de prestígio,
Assim mesmo, mal assimilado, aceito:
És passível de registro!

Na tentativa urgente de eternizá-lo
Separei telas – sem abalo - , criei cores – poucas tintas –
Compenetrada (ar)risquei sem precisão:
Reduzi a beleza a infiéis linhas...

Tomei nota – pintar é tomar nota do que se vê –
Tomei tento, juízo e um Bordeaux
Aos pincéis, frustrados, que acusam meu delito
Lanço um olhar à la Frida, calo e só ferida.


quinta-feira, 6 de março de 2014

O GOLPE - Es'Piano tuas mãos

"(...)your skin and bones
Turn into something beautiful" *

Todos sabem sobre mãos
Mas, que sei eu das tuas?
Ossos, unhas, dedos, mús(icas)culos, poesia.

O que delas conheço não basta,
É preciso olhar de perto, mesmo longe
Tocá-las sem senti-las
Já mortificadas relembrá-las
Com admiração tanta ao vigor
que delas vem
Para que eu seja mais equilíbrio e menos saudade.

Posto que me apetece estar, mesmo que furtivamente,
Sobre estas mãos,
Que seja piano, que seja pianíssimo! 






*MARTIN, Chris; BERRYMAN, Guy; BUCKLAND, Jon; CHAMPION, Will. Yellow. In: Coldplay. Parachutes. Reino Unido: Parlophone, 2000. 1 CD. Faixa 5.

sábado, 14 de dezembro de 2013

CONFRONTO


Abre-se a mente, lenta mente...
Tarefa impiedosa - surge, assombra, acontece:
Dor válida.
Ademais, predecessora de iluminação:
Quente mente.
Se ainda não, ampute-se, gladie-se,
Só não arquive o processo,
Em obstinação perene se alcança progresso.
Caso, estúpida mente, canse, lamento!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

DUAS VEZES LUSTRO



                                                 (Ao amor maior)

 

Duas vezes lustro, decênio,
Capítulos, novembros,
Década de uma vez que se foi

Mas retornes... Que me apetece!

Mãe,
Envie-me um sonho bom
Como aqueles que, ao acordar,
A gente sabe que não foi só um sonho...
Mas finge que foi!

A lua, as ladeiras, muralhas da Grécia,
As altas camas e paredes perfumadas
Por ervas em minhas mãos,
Que dizer? Que pensar?

Responsabilidade tua, que por outrora
Ter-se feito presente e agora não mais,
Recompensa-me com sonhos, águas lustrais,
Em tua ausência desmedida...

Mãe,
Envie-me um sonho bom
Como teu cheiro que permanece, mas que
Para não perdê-lo nem me movo,
Disfarço que sinto, guardo em segredo!

Parte de mim, momento meu,
Que fazer quando pensar?
Quanto penar...
Tristeza de anos a fio: instante!

FRICTIO GRADUS


Folhas secam 
Flores floram-se 
Finas foram-se 
Virar secura. 
Renda em brandura 
Finita finura, 
São as folhas que estalam 
Ou o chão que murmura? 
Fim do compasso 
Findo abraço 
Sem ritornello a floresta se cura.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ATRASO

 
Arc, arc, arc...
Arcaico, artista, arco-íris,
Armado, arteiro, artrite,
Alado, inalado,
Arnaldo, ar Nietzsche,
Arcada, ar triste.


Armada, fermata, Arturo.
Amada, fé mata... Aturo!


quarta-feira, 12 de junho de 2013

CAPPUCCINO MUNDO



                            


A distância é porto, é lenço, é mar, é enfeite
Que decora meu espelho, enquanto a saudade espreita
Uma saída sem que eu a perceba...
É conformismo, é riso esperançoso aguardando o teu
Que, enquanto não chega, o meu se aquieta e me deixa:

Cá, por ti, no mundo!

Cappuccino forte p’ra qualquer amor profundo
Que não se queixa da má sorte de amar tão sem juízo,
Tão sublime, enlouquecido, a ponto de gritar arfante ao mundo,
Que a sorte lhe foi amiga!

Mas quão amiga me foi a morte,
Que me levou a vela, a sede, o céu, o senso,
E tão à míngua me deixou entregue
À tua pureza mais terna e tênue.

Tens as mãos que se movem à mó
No amor que em mim é carcerário,
E tu, apenas tu, tem o poder de visitá-lo, quando em vez,
Em alegria ou pranto!

E esse amor é de um valor tanto
Que o vejo prestes a ser furtado,
Quiçá por algum não amado
Buscando a felicidade em teu canto...

Mas este amor já me foi selado.
Conferi endereço e destinatário...
É teu, ímpeto e afortunado,
Com graça, memórias e cartões-postais,
Lembranças, notícias, meus abraços e mais:
Um “Eu te amo” estuante no Post-scriptum!